Até recentemente, médicos e pesquisadores evitaram estudar as relações entre religião e saúde. Crenças e práticas religiosas eram tidas como subjetivas, de pouca relevância, e seu benefício, se havia algum, era não quantificável. Em decorrência disso, a grande maioria dos profissionais da saúde ignora as necessidades religiosas e espirituais dos pacientes.

No entanto, algumas mudanças têm ocorrido. Os médicos têm se dado conta com crescente freqüência da importância dos sentimentos religiosos para os pacientes no momento da doença, e tem havido um grande aumento das pesquisas na área. Até o ano 2000, foram realizados mais de 12200 trabalhos científicos relevantes nessa área.

O tema é relevante, já que uma elevada porção da população é religiosa. Nos Estados Unidos, 96% acreditam em Deus, 90% rezam, 70% são membros de igrejas, e 40% comparecem semanalmente a serviços religiosos. No Brasil, embora os dados sejam menos detalhados, o censo do IBGE 2000 detectou que existem mais de 157 milhões de pessoas que exercem uma denominação religiosa, perfazendo cerca de 90% da população.

Conceito de Religião/Espiritualidade.

Várias definições têm sido empregadas para conceituar religiosidade e espiritualidade. Essa heterogeneidade de definições leva ao uso de uma grande variedade de instrumentos para medir religiosidade e espiritualidade, tornando difícil a análise comparativa. Essa falta de padronização tem sido um dos motivos para a pequena valorização das pesquisas sobre o assunto, e a dificuldade de implantar o cuidado espiritual de forma mais ampla no manejo dos pacientes. A recomendação mais confiável é que se use os seguintes conceitos:

1. RELIGIÃO: é um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos, desenhado para aproximar do sagrado ou transcendente (Deus, poder mais alto) e orientar as relações e responsabilidades com as outras pessoas em uma comunidade.

2. ESPIRITUALIDADE: é a busca pessoal por sentido e significado para a vida, que pode ou não estar relacionado à religião.

Benefícios globais da R/S. Muitas pessoas se voltam p/ religião para lidar com situações estressantes ao longo da vida. Foi demonstrado que, logo após o ataque terrorista às torres gêmeas, em 2001, aproximadamente 90% dos americanos se voltou para a religião para lidar com a situação de stress. Da mesma forma, um grande número de pessoas usa a religião para apoio e ajuda para lidar com problemas de saúde mental e física. Esse apoio da religião tem se mostrado efetivo em reduzir o stress, minimizar a depressão, e melhorar a qualidade de vida. Além disso, envolvimento religioso se associa com melhores hábitos de saúde, menos drogadição, menos delinqüência juvenil, e melhor desempenho escolar.

R/S e saúde física e mental. Maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico (satisfação com a vida, felicidade, afetos positivo e moral mais elevados) e a menos depressão, pensamentos e comportamentos suicidas, uso/abuso de álcool e drogas. Esse impacto positivo parece ser mais relevante entre pessoas sob estresse (idosos e aqueles com deficiências e doenças clínicas). A soma das evidências permite afirmar que o envolvimento religioso habitualmente está associado à melhor saúde mental. É importante, porém que se busque uma melhor compreensão dos fatores mediadores dessa associação e sua transposição à prática clínica diária. R/S tem sido associada com melhores hábitos de saúde, como menos fumo e mais exercício. Também tem sido ligada a menor taxa de acidente vascular cerebral, melhor função imune, melhor perfil metabólico, e melhor evolução nos pacientes com câncer.

R/S e mortalidade geral. Uma meta-análise de 11 estudos longitudinais em grandes populações mostrou que a freqüência semanal a serviços religiosos reduziu em 25% o risco de mortalidade, mesmo após ajuste para variáveis demográficas, socioeconômicas e fatores de risco cardíaco. Além disso, demonstrou que o mecanismo desse benefício parece ser a maior prevalência de comportamentos saudáveis (não fumar, atividade física, revisões médicas anuais, interação social, entre outros) 17. Essa associação entre religião e redução da mortalidade foi confirmada por outros estudos epidemiológicos de grande porte.

R/S e morte por doença cardíaca. A relação entre religião/espiritualidade e doença cardíaca é um pouco mais controversa. Assim, um estudo feito com mais de 10000 trabalhadores judeus mostrou que os mais ortodoxos tiveram uma menor taxa de mortalidade cardíaca, comparada aos agnósticos. Porém, alguns problemas metodológicos limitam a confiabilidade desses dados. Já uma meta-análise metodologicamente adequada sugere que a freqüência semanal a serviço religioso reduz a mortalidade cardiovascular, e que o mecanismo dessa redução seriam os hábitos de saúde e redução dos fatores de risco CV, estimulados pela religião. Por outro lado, um estudo epidemiológico em grande população multi-étnica não mostrou associação entre religião, espiritualidade e fatores de risco CV ou marcadores de aterosclerose.

Cirurgia cardíaca. Em um trabalho realizado com o objetivo de avaliar o impacto da depressão e do envolvimento religioso nos desfechos após cirurgia cardíaca, foi demonstrado que houve menos complicações pós-operatórias e uma menor permanência hospitalar no grupo de religiosos. Em uma outra série de 232 pacientes submetidos a cirurgia cardíaca aberta, o envolvimento religioso e o suporte social reduziram a mortalidade no pós-operatório em 6 meses (2,7%). Ausência desses dois fatores se associou a mortalidade de mais de 20% no mesmo período. Em um estudo de intervenção religiosa (com prece à distância, ou prece intercessória - PI), 1802 pacientes submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica em seis hospitais nos Estados Unidos, foram alocados aleatoriamente em três grupos: PI sem saber, PI sabendo, e não PI. O resultado mais importante foi de que o grupo que sabia que receberia PI teve uma taxa de complicações pós-operatórias significativamente maior (27% a mais) que os demais grupos. A interpretação dos autores foi de que, achando-se com mais risco por “estarem necessitando de prece”, os pacientes tiveram uma descarga adrenérgica aumentada com as suas conseqüências no pós-operatório.

Angioplastia coronária. O estudo piloto MANTRA avaliou o efeito de terapias noéticas (redução de stress, imagens relaxantes, terapia de toque, e prece) sobre stress e complicações após intervenção coronária percutânea (ICP); na avaliação inicial, com 150 pacientes, houve redução de 25-30% de redução de desfechos adversos/complicações; os pacientes mais beneficiados foram os que tinham crença religiosa mais forte, os mais espiritualizados, e os mais ansiosos em razão do procedimento. O MANTRA II foi um estudo randomizado prospectivo, testando as mesmas intervenções em 748 pacientes; não foi demonstrado efeito das intervenções nos desfechos primários (eventos adversos cardíacos intra-hospitalares e readmissão ou morte em seis meses.No entanto, houve redução significativa no desfecho secundário de morte por qualquer causa no grupo MIT (música, imagens e toque), com um Hazard Ratio de 0,35 (IC95 0,15-0,82). Como foi um achado em desfecho secundário, essa redução da mortalidade deverá ser confirmada em outros estudos.

Insuficiência cardíaca. Diversos estudos observacionais avaliaram o efeito de R/S em aspectos diversos dos pacientes com insuficiência cardíaca. Esses estudos demonstraram que há um efeito benéfico do envolvimento religioso no bem-estar psicológico, qualidade de vida e na carga de sintomas desses pacientes. No entanto, não há estudos avaliando desfechos relevantes na insuficiência cardíaca (mortalidade, complicações, reinternação por descompensação).

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