CIÊNCIA, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE: UM ENCONTRO POSSÍVEL?

Dr. Fernando Lucchese *

Um seminário com este título promovido pela Santa Casa movimentou Porto Alegre recentemente. Mil e trezentas pessoas lotaram o auditório e outras mil e quinhentas, infelizmente não tiveram acesso. Dias antes esse assunto foi abordado no programa “Conversas Cruzadas” da TVCOM, dirigido pelo jornalista Cláudio Brito. A pesquisa interativa realizada durante o programa propôs a seguinte pergunta: “Você acredita que a espiritualidade influi sobre a saúde?” A resposta foi afirmativa para 94% dos 500 telefonemas recebidos. Este assunto definitivamente está ocupando os pensamentos do ser humano do século 21. No último senso do IBGE divulgado há poucos meses, fica clara a forte tendência religiosa do povo brasileiro, com migrações entre religiões e um pequeno numero de não crentes. O confronto entre ciência e fé tem estado em pauta em décadas recentes. Os médicos, pela essência da profissão, sempre preferiram se posicionar ao lado do ceticismo científico à espera de evidencias que os fizessem mudar de posição. Progressivamente, nas últimas duas décadas estas informações começaram a surgir com mais intensidade e solidez. É importante lembrar que nós, que atuamos em áreas de maior risco, e que presenciamos a vitória da doença, sempre estivemos mais abertos para estes fatos.

O psiquiatra americano Dr. Harold Koenig da Universidade de Duke, foi palestrante em nosso seminário em Porto Alegre. Ele trabalha há 28 anos na busca da resposta à pergunta que intitula este artigo. Na mesma linha, ele publicou neste ano seu quadragésimo livro e tem mais de 300 artigos divulgados em revistas científicas de renome. Reeditou neste ano seu “Religion and Health” um livro-texto utilizado na disciplina “Religiosidade e espiritualidade para médicos” que hoje a quase totalidade das Faculdades de Medicina americanas apresentam em seu currículo. Reúne mais de 1200 estudos sobre o tema, desde o século 19, procurando correlacionar religião e saúde. O surpreendente é que nos últimos dez anos o número de trabalhos científicos publicados simplesmente triplicou em comparação com a totalidade que existia até o ano 2000. Ou seja, o tema está vivo, está no foco dos pesquisadores, e os resultados dos estudos são progressivamente mais consistentes. Fica claro que ninguém está propondo utilizar religião ou espiritualidade como tratamento, mas conhecer as necessidades espirituais do paciente contribue muito para a sua recuperação.

Na recente entrevista para as páginas amarelas de “VEJA”, Harold Koenig caracteriza bem o papel da religião no processo de tratamento. Cita alguns estudos realizados em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca mostrando que os que seguem uma religião têm menos complicações, ficam menos tempo internados e pagam contas hospitalares mais baixas. Outra informação importante é a influencia de uma vida religiosa ativa sobre o aumento significativo da longevidade. Um estudo realizado com 10 mil funcionários públicos de Israel demonstrou no acompanhamento ao longo do tempo, que os religiosos ortodoxos viveram em média sete anos mais que os outros. É surpreendente! Tem ficado evidente que doenças relacionadas ao estresse, como os distúrbios cardiovasculares e hipertensão, parecem ser mais sensíveis a uma disposição mental de cunho religioso.

A polêmica não será resolvida rapidamente. Porém, o ser humano do século 21 está buscando fontes de esperança para a sua vida e a religião tem sido excelente apoio em suas dificuldades. Nós médicos temos ainda um longo caminho a trilhar. Estamos desenvolvendo no Hospital São Francisco de Cardiologia da Santa Casa uma nova linha de pesquisa que busca relacionar as influencias da espiritualidade sobre a doença cardiovascular em indivíduos submetidos a cirurgias cardíacas e infartos. Mais de 300 pacientes em vésperas de serem operados do coração e quase uma centena de cardiologistas responderam a um questionário. O resultado foi de novo surpreendente: 70% dos pacientes gostariam que o médico falasse sobre religião com eles, mas apenas 15% dos médicos o fazem. Como veem ainda há um longo caminho pela frente. Mas pela repercussão deste tema no recente Congresso Brasileiro de Cardiologia que pela primeira vez o aborda em 67 anos, em um auditório superlotado, e também pelo interesse e aceitação de um número crescente de médicos, estou convencido que cabe à nossa geração assumir a responsabilidade de estuda-lo e divulga-lo com seriedade. Sempre procurando atender as necessidades e apelos de nossos pacientes.

* Cirurgião cardiovascular e Diretor do Hospital São Francisco de Cardiologia
da Santa Casa de Misericórdida de Porto Alegre.

Voltar Topo da página Imprimir página